Vamos pensar um pouco?

Vamos considerar, apesar disto estar longe de ser verdade, que só participa de militância, ativismo, movimento social e luta de classes quem é rico e tem tempo de sobra. E vamos considerar que quem pega ônibus lotado, trabalha feito burro de carga para talvez depois ir estafado a uma faculdade de fundo de quintal – paga com uma fatia grossa da pequena renda – tem uma vida tão ruim que nem tem condições de participar de algo: ou seja, vamos fingir que ninguém tem tempo e energia para acompanhar de perto seu time de futebol nem para ficar horas em uma fila para tirar foto com uma tal celebridade do momento.

Isso posto (de maneira bem forçada, é bom frisar), deve-se achincalhar quem faz movimento, pois “esse aí é rico, tem vida boa e nem precisa fazer baderna nenhuma”? Então o certo e admirável é que esse sujeito fique bebendo whisky em baladas caríssimas, viajando para a Disney, fazendo compras na Oscar Freire e jogando polo?

Parece absurdo, mas existe uma arapuca muito bem armada que faz grande parte do povo criticar quem é “riquinho” e luta por um mundo melhor. Essa arapuca também faz muita gente achar bonito viver em condições pesadas, estressantes e ruins, “porque tem que ter muito orgulho disso”!

E é bem comum ver gente que se orgulha da própria ignorância e alienação, achando que tem uma opinião bem embasada, mas que só fica repetindo igual papagaio de pirata discursos prontos de mídia sensacionalista, livrecos de auto-ajuda, jornais televisivos picaretas, “artistas” imbecis, figurões religiosos e “empresários de sucesso” sanguessugas. Essa gente ainda ri da cara de quem procura aprofundar, problematizar, estudar e compreender assuntos, dizendo que “isso é conversinha de metido a filósofo” ou – como já ouvi – “papo pseudo-cult nerd socialista”.

Esse orgulho literalmente besta é orgulho de quê, oras? Mais uma vez, está aí a maldita apologia à miséria, estetização da pobreza, valorização do sofrimento. E junto com uma grande dose de recalque! Porque quem diz se orgulhar de viver uma vida sofrida e imbecil no fundo fala isso para tentar se contentar de maneira ilusória. Ninguém quer viver mal e perceber que é burro, oras!

Esse tipo de mentalidade, por mais estapafúrdia que seja, é a que uma minoria de poderosos pilantras quer – e consegue! – incutir em grande parte do povo enquanto ri da nossa cara sem abrir mão de seus escusos e estritos privilégios.

Alô-ô! A contradição está clara! Vamos pensar um pouco? Acorda para a vida, minha gente!

 

Cebolinha Debate De Ideias Fulano Detal

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