DOIS ANOS DO 27 DE OUTUBRO!

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Os estudantes expulsaram a PM do estacionamento da FFLCH no dia 27 de outubro.

Há dois anos os estudantes da USP enfrentavam a PM na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas. A resposta espontânea à militarização do espaço da universidade ocorreu alguns meses depois de a reitoria firmar o convênio USP-PM.

ANTECEDENTES

A comoção com o caso do estudante morto semanas antes em um assalto na Faculdade de Economia e a campanha do medo feita pela imprensa fez com que a burocracia aprovasse à toque de caixa a permanência da PM no campus. Rodas aprovou o convênio por meio de um Conselho Gestor, órgão ainda mais restrito e controlado politicamente que o C.O.

O convênio teve precedentes importantes. Dois anos antes, em 2009, João Grandino Rodas, então diretor da Faculdade São Francisco e membro do C.O. apresentou a proposta de legalização da entrada da Tropa de Choque no Campus para reprimir ocupações e greves. Em 2007, Rodas já havia sido o primeiro diretor da história da Sanfran a autorizar a entrada da PM para desalojar uma ocupação estudantil e de movimentos sociais.

A IMPORTÂNCIA POLÍTICA DO 27 DE OUTUBRO

De todos os movimentos que o precederam, o movimento de 27 de Outubro foi o que representou a reação mais contundente contra a ocupação militar e maior experiência política dos estudantes.

Na noite do dia 27 quase mil estudantes no estacionamento da história reagiram à prisão de três colegas por porte de entorpecentes, num dia em que a PM realizou diversas abordagens a vários estudantes na FFLCH, procurando um pretexto para reprimir.
Os manifestantes impediram a passagem da viatura da PM, expulsaram os militares do prédio de Ciências Sociais e Filosofia e rejeitaram a decisão do DCE (então dirigido pelo PSol) e da então diretora da faculdade, Sandra Nitrini, de escoltar os colegas até a viatura da Polícia Civil rejeitando a falácia de repressão por motivos de atividade ilegal (o que sempre é alegado pela PM para reprimir as populações periféricas da cidade). Os estudantes expulsaram a PM a pedradas e uma assembléia realizada logo em seguida decidiu naquele mesmo dia pela ocupação do prédio da administração da FFLCH. Aquela havia sido a primeira assembléia geral do semestre, pois o DCE havia se recusado a realizar assembleias, mesmo com a aprovação do convênio.

No dia 3 de novembro, em uma assembléia conturbada no prédio da História/Geografia, votou-se pela desocupação da administração e em seguida pela ocupação da reitoria. Os estudantes rejeitaram um golpe da direção do DCE, que por volta das 23h da noite queria impedir a revotação (logicamente a ocupação havia sido vitoriosa). A ocupação da reitoria foi a única na história do ME recente da USP a ser aprovada em uma assembleia geral, apesar de toda a campanha do DCE na época e atualmente apontando a “ilegitimidade” daquele movimento.

Após uma série de assembleias gerais combativas convocadas pela ocupação, a reitoria resolveu armar uma praça de guerra na USP no dia 8 de novembro enviando mais de 400 homens (Cavalaria, Força Tática, Tropa de Choque, Rota e helicópteros) que cercaram a reitoria e o Crusp. A ação da PM e a prisão de 73 estudantes que permaneciam no prédio foi enfrentada por diversas manifestações que culminaram numa assembléia de cerca de 3 mil estudantes na Faculdade de História e a aprovação da Greve.

RETOMAR OS MÉTODOS DE LUTA DO MOVIMENTO QUE SE GENERALIZAM PELO PAÍS

Os métodos de luta do movimento, que enfrentou a repressão policial na universidade, são os métodos que se generalizam atualmente nas lutas pelo país, a começar pelas maiores metrópoles. É o que se viu em São Paulo, no Rio de Janeiro em Belo Horizonte nos protestos vitoriosos de Junho. Somente com enfrentamento conseguiu-se a redução da passagem de ônibus. As manifestações reuniram uma parcela importante da juventude, abarcando também as camadas da juventude proletária, que saiu à rua por melhorias e a fim de enfrentar a repressão militar com seus próprios métodos de luta. Pichações, levantamento de barricadas, catracaços, ocupações de terminais, derrubada de guaritas da PM, ações de autodefesa, quebras de ônibus, etc, tornaram-se prática comum apesar de algumas direções políticas que tentaram conter sua espontaneidade.

Neste 27 de outubro, três fatos em São Paulo mostram a generalização dos métodos de enfrentamento. No dia 26, estudantes que ocupavam o terminal Parque Dom Pedro no centro da cidade reagiram à ordem de prisão do coronel Reynaldo Simões Rossi, comandante da operação policial no dia 13 de junho, a mais dura entre todas as realizadas na cidade. Neste sentido, os adeptos da tática Black Bloc, de enfrentamento contra a repressão, são uma espécie de saldo da luta de junho, transformando estes métodos de espontâneos a organizados.

Nos últimos dias 27 e 28 dois adolescentes de 17 anos, Jean e Douglas, foram mortos em operação policial, causando revolta e enfrentamento de moradores com a PM. Em resposta a isso, governo e a imprensa fazem uma aliança sinistra. A acusação de “vândalo” tem sido usada irrestritamente contra qualquer cidadão que reaja aos abusos policiais, seja um estudante mascarado, seja moradores da periferia. O governo federal e estadual realizam uma imensa operação policial para conter manifestantes e este é um sinal da gigante tendência à generalização das lutas. A criminalização dos manifestantes, o fichamento político de presos, acusando-os de formarem quadrilhas e serem vândalos demonstram o imenso temor que a classe dominante e as forças de repressão têm quanto à ampliação da resistência popular.

Neste sentido, se o 27 de outubro não foi um estopim desta luta nacional, este marcou a inserção da luta do movimento estudantil da USP na luta nacional, apontando os métodos a serem seguidos. Ficou claro que não há vitória sem luta real, e que para haver mudanças a fundo, o movimento não pode se dar por qualquer conciliação pacífica.
É adotando estas conclusões que o atual movimento na USP, assim como em outras universidades deve atuar. Não pode haver vitórias contra a burocracia sem pressão e luta, sem enfrentamento e sem que se coloque um basta na ditadura da burocracia universitária.

R. G.