Instituto de Estudos Atrasados

Se alguma coisa óbvia apontam estas ondas de manifestações de junho pra cá é a falência do formato tradicional de todas as instituições surgidas pelo menos a partir das revoluções burguesas europeias. O Instituto de Estudos Avançados da USP não é exceção. O pronunciamento raivoso e vingativo lançado como bala de borracha e gás asfixiante em direção aos jovens que ousaram desdenhar de seus papéis e abrir as suas gavetas bem é uma prova de que se continuam chegando a tempo de pegar o bonde da História, andam chegando por demais atrasados à decifração dos enigmas das esfinges pós-ortodoxas. Não escondo a frustração que tive ao acompanhar suas tentativas de leitura desta recente movimentação social. Deram pouco tempo a muitas análises, a maioria rasas, e não souberam identificar as mais brilhantes, para lhes dar o tempo necessário para maturar. Às vezes temos a impressão de que não têm olhos para enxergar nem o chão onde pisam. A “maior” universidade da América Latina, da qual estes senhores têm a pretensão de ser a “reserva especial” não tem, por exemplo, e simplesmente, ciclovias. As novas gerações se recusam a andar “nos trilhos” dos velhos bondes. Seus caminhos incluem atalhos, rasgos de paisagem, pequenas e surpreendentes veredas que as velhas categorias ignoram, preocupadas que estão em defender a importância de seu status quo mofado. Os estudantes do Crusp, assinale-se, são obrigados a amarrar suas bicicletas no corrimão das escadas, pelo que são acusados, pela administração universitária, de bloquear o acesso (inexistente!) aos portadores de deficiências. Na contramão destas novas gerações e sua preocupação com a saúde do planeta, e o futuro da vida – a não-humana inclusa! – a burocracia universitária abriu o campus para a indústria dos automóveis, que congestionam as vias de estupidez, cegueira e arrogância. Talvez prefiram acusar os estudantes e não os “gestores públicos” porque aqueles não demonstram maturidade para lhes ameaçar a inoperância e estes lhes acomodaram as trouxas na dependência de empregada – vaga porque terceirizado não pode dormir em serviço? – da reitoria, onde acabaram por ver os próprios rabos presos. Seu objeto de estudo, o reitor mandou a polícia militar expulsar e prender. 42 dias ociosos não bastaram para tê-los feito avançar no entendimento de si mesmos, apanhados de surpresa e enredados no turbilhão de que se acreditavam distanciados e imunes. No final desta tragédia de estudos atrasados, há um rio. O rio do esquecimento. Se tivessem a coragem – e a dignidade – do herói, furariam os olhos de suas pesquisas e humildemente tomariam o caminho de suas origens, buscando entender por onde erraram. Nosso terror, entretanto, é bem diferente do clássico: vem da percepção de que “nossos heróis morreram de overdose” de favores e cordialidade, antes que qualquer reconhecimento e/ou reviravolta tenham tido o tempo necessário para vingar e provocar em nós algum sentimento de piedade. PS: Sempre me perguntava por que obscura razão um Hansen e um Kossovitch não eram admitidos no clube. Agora entendemos melhor.

Pedro Carvalho,

do curso de Letras da FFLCH.