O academicuzinho

Entre um gole e outro de seu capuccino, Tobias escuta um ruído – do décimo oitavo andar de um apartamento na Av. Paulista, tudo se torna um ruído. Antes mesmo de completar o percurso até a janela, já esboçava o seu característico sorriso irônico. Tobias já sabia do que se tratava. “OUTRA manifestação? Eles ainda não se cansaram?”.
Como qualquer estudante de ciências humanas que se preze, Tobias é um leitor assíduo – nada lhe escapa aos olhos. Lê artigos acadêmicos, literatura clássica, a bibliografia completa de todos os seus professores da faculdade, jornais, revistas… O tema de sua preferência? Política. Tobias é um perito no assunto (segundo a sua mãe, sua titia Lucinha e… Ele mesmo). Afinal, ele não é como a maior parte dos intelectuais, que atuam somente como observadores; Tobias já havia feito política com as próprias mãos, como podem ver pela foto abaixo. Ele tem cacife, portanto, para analisar a conjuntura, e a sua maturidade – conquistada precocemente através de seus anos de estudo – lhe permite entender exatamente o que se passa na cabeça de cada manifestante. “O que eles poderiam ser, senão crianças radicais e ingênuas? A revolta deles não tem sentido nenhum! O país inteiro está festejando por estarmos em um ano de Copa, e eles estão aí… Querendo acabar com ela! É a nossa única chance de reaver o que foi gasto com os investimentos”.
É uma pena. Tobias havia esquecido de olhar a seção de notícias que falava (as menções são rápidas, sutis e eufêmicas: não culpemos o pobre Tobias) sobre a infinidade de famílias – por volta de 250 mil pessoas – que foram despejadas, tudo para que a sua “grande festa” pudesse ser realizada. Tobias se esqueceu de pensar que, talvez, a sua inércia não fosse fruto de seu racionalismo, de sua bagagem intelectual, mas da conta bancária de sua mamãe – que lhe financiou a confortável posição (o décimo oitavo andar tem uma vista linda) de espectador do mundo real. Graças a ela, ele pode ficar lá, de sua janela mesmo (inatingível, inalcançável), atuando como um grande crítico dos movimentos sociais.
Tobias leu todos os livros d’O Capital. Tobias tinha um Lattes invejável… Mas Tobias se esqueceu de fazer o trabalho de campo.

Mulher Mosca

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