A questão do poder na universidade

O novo reitor assume o comando da burocracia universitária do ponto em que Rodas parou. A crise não está encerrada, muito longe disso

O início do ano letivo já deixou evidente o esforço do novo reitor para remendar as relações entre a burocracia acadêmica e os estudantes.

Os calouros foram recebidos pelo lema escolhido pela administração de Marco Antônio Zago: “todos nós juntos”. A intenção explícita é a reconciliação, difundindo a ilusão de que estudantes, funcionários, professores e dirigentes estão em um mesmo patamar de igualdade. Não estão.

Qual é o motor da crise?

Os estudantes da USP travam uma luta, pelo menos desde 2007, em defesa da autonomia da universidade diante do Estado capitalista. Essa luta possui diversos desdobramentos. Trata-se da oposição dos que são maioria na universidade (os próprios estudantes) à intervenção policial no campus; à privatização colocada em marcha com a introdução das fundações e de uma série de cursos pagos; da rejeição dos estudantes à maneira como a universidade é dirigida entre diversas reivindicações.

É este último ponto, o poder na universidade, que revela a profunda desigualdade existente na USP e que Zago tenta, em vão, esconder com seu chamado à união.

As decisões e o poder na universidade são exercidos de maneira ditatorial por uma casta de professores privilegiados e que se sustentam por meio de um aparato político: a reitoria, indicada pelo governo estadual (logo, há quase duas décadas pelo PSDB), apesar de formalidades democráticas como a “eleição” realizada entre pares, no Conselho Universitário, e de outras não tão democráticas assim como a lista tríplice, com os nomes de três candidatos oferecidos como opções ao governador.

Novo reitor, velhos problemas

Zago procura colocar panos quentes na crise. Nos últimos anos, os estudantes da USP se enfrentaram com a Polícia Militar em mais de uma oportunidade.

A intervenção policial chegou a tal ponto sob a gestão de João Grandino Rodas (o favorito de Serra) que um convênio foi firmado para manter a PM permanentemente dentro do campus.

O reitorado foi forçado pelas circunstâncias a governar pela força, calando as dissidências com a ameaça policial, os processos administrativos e criminais contra estudantes e funcionários grevistas e manifestantes e, logicamente, as eliminações.

Essa situação se deve ao fato de que a radicalização dos estudantes, que assumiram a iniciativa ocupando prédios na universidade e a própria reitoria, ultrapassou as direções estudantis tradicionais, nos Centros Acadêmicos e no Diretório Central dos Estudantes (DCE). Hoje, as mais importantes destas entidades estão nas mãos de partidos de esquerda como PT, Psol e PSTU. Foi derrotada a sua política conservadora, por meio da qual procuram, tal como Zago, conciliar os interesses opostos de estudantes e dos professores que dirigem a universidade.

O DCE, controlado por uma frente entre Psol e PSTU, só é capaz de refrear o espírito combativo dos estudantes disseminando a confusão e calúnias. Sua política de conciliação de interesses com a reitoria, em suma, de “diálogo”, já foi deixada para trás pela experiência acumulada pelo movimento.

Em função disso o movimento estudantil avança com passos vacilantes, pois cada batalha travada contra a burocracia e a cada vitória conquistada pelo movimento, seus dirigentes oficiais procuram anular a vitória, obscurecendo seu significado e condenando os métodos (greves, piquetes, ocupações etc.) por meio dos quais foi alcançada, além de apontar para o caminho que já foi deixado de lado pelo movimento: o da negociação pacífica, nos termos em que a reitoria e o Estado querem.

Qual é o caminho?

A crise existente hoje na USP não vai se resolver sem a vitória de um dos lados em luta. Ou a reitoria e o governo do estado “pacificam” a USP e calam a dissidência, como pretende Zago; ou os estudantes e uma camada de professores e funcionários verdadeiramente democrática e comprometida com o avanço da universidade derrotam a política de privatização e destruição da universidade e impõem uma profunda reformulação nas suas estruturas.

Para que a USP seja colocada, de fato, a serviço dos interesses da maioria da população, esta deve ser dirigida por aquela camada capaz de se colocar à frente da luta pelo progresso cultural. Para que seja efetivamente um espaço de livre pensamento e de produção do conhecimento, os rumos da universidade não devem estar sob o controle de uma minoria burocrática, preocupada apenas com seu próprio bem-estar e a preservação de seus altos cargos. É preciso que a maioria dos que compõem a universidade decida sobre seus rumos, que deixe de ser refém dos interesses de uma minoria que lhes é imposta pelo arbítrio do governo de plantão.

Somente um governo tripartite, formado por estudantes, professores e funcionários, de maneira proporcional (isto é, com maioria estudantil), pode dar conta destas tarefas.

A luta dos estudantes da USP deve ser retomada com a volta às aulas, posto que os mesmos problemas (a polícia, a repressão, a privatização e os ataques à autonomia da universidade) continuam a existir e diante do fato de que a tarefa fundamental necessária à solução destes problemas, a da mudança no governo da universidade, ainda não foi realizada.

 

Rafael Dantas

Estudante de Filosofia e militante
do Partido da Causa Operária