USP: UMA ESTRUTURA PARA LEGITIMAR A BARBÁRIE? SIM! (PARTE II) – ASSÉDIO SEXUAL, ABUSO DE PODER E REPRESENTAÇÃO ESTUDANTIL NA PÓS-GRADUAÇÃO

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Apesar da causa feminista estar em moda, principalmente na USP, quem é vítima de assédio sexual dificilmente tem condições psicológicas de expressar isso claramente. Entretanto, quando a denúncia ocorre, a academia fecha os olhos para essa realidade com a intenção de proteger o docente denunciado, chegando, até mesmo, ao ponto de intimidar a vítima. Eu, por exemplo, inicialmente, por timidez só deixava implícito o fato de me sentir assediada pelo orientador e enfatizava a prática da censura. Somente depois, quando eu não tive alternativa devido à negativa do orientador em permitir a troca de orientação, é que comecei a denunciar de forma aberta o assédio do orientador. Denunciei formalmente, em documentos protocolados, o assédio do orientador, mas a coordenação do curso silenciou completamente perante a minha séria denúncia, não realizou a troca de orientação e me desligou irregularmente do curso faltando mais um semestre para o meu prazo final.

Os problemas com o meu orientador começaram devido a questões teóricas. Ele nunca afirmou, porém, que faltava qualidade no meu trabalho: as desavenças nunca estiveram relacionadas aos aspectos técnicos da pesquisa. Depois, as censuras teóricas começaram a ser acompanhadas de críticas sobre o meu comportamento pessoal e de frases e atitudes extremamente constrangedoras principalmente para uma mulher. Eu me senti coagida a ficar em reuniões, sozinha com o orientador, que duravam quase seis horas e a ter que me submeter a suas atitudes, que eram completamente anti-acadêmicas. Certa vez fui liberada dessas longas reuniões por volta das 23h quando não havia quase ninguém do prédio; ele ainda queria me levar para a minha casa. Nessas reuniões, escutei reclamações de está-lo “magoando”, de que ele se sentia “usado” por mim, de que eu não o “elogiava”, de que eu era “fria” com ele, de “que tinha uma coisa dentro de mim que o incomodava” e que deveria ser por causa dessa “coisa” que eu tive que “trocar de orientador anteriormente”. Aliás, o fato de eu já ter trocado de orientador sempre serviu, tanto para o orientador quanto para o coordenador do curso, me intimidarem e me fazerem me submeter a todas as arbitrariedades. O coordenador chegou a me intimidar a não pedir a troca de orientação, dizendo que, se eu trocasse novamente de orientação no mestrado, ninguém iria aceitar me orientar, futuramente, no curso de doutorado, apesar da qualidade da minha pesquisa. Então, resolvi trabalhar na pesquisa sem nenhum auxílio do orientador (com a ajuda de outros docentes). Quando concluí a dissertação, pedi a troca de orientação, que me foi negada.

Fui considerada como objeto e propriedade do meu orientador, por ele e pela coordenação do curso de pós-graduação (que ignorou meus inúmeros pedidos formais e protocolados de troca de orientação já negados pelo próprio orientador). A minha vontade, integridade e dignidade jamais foram consideradas pela coordenação do curso, que não efetivou a transferência de orientação para não se indispor com o meu orientador (que se sentia no direito de me prender, assediar e censurar). Enfim, fui tratada como moeda de troca e mercadoria pelo coordenador do programa de pós-graduação (que, em troca de apoio, me negou condições dignas de estudo). Deixei a minha cidade para ir estudar na USP, permaneci quase 3 anos em SP para realizar meus estudos na Instituição, cumpri com êxito todas minhas obrigações acadêmicas (fui aprovada com elogios no exame de qualificação e cursei todos os créditos necessários) e concluí, inclusive, a minha dissertação; entretanto, fui excluída do curso de forma irregular e arbitrária. Meu desligamento ilegal e imoral foi realizado por iniciativa do coordenador do curso que, para evitar a troca de orientação e investigar minhas denúncias, me desligou irregularmente e sete meses antes do meu prazo depósito da dissertação. É incrível o fato do coordenador ter me desligado, apesar dele próprio ter expressado várias vezes que a minha dissertação era muita boa. E mais incrível ainda é o fato dele ser filiado a um partido (presumível) de esquerda, que tem como mote a defesa das mulheres. Esse partido tem grande representação no movimento estudantil da USP, mas seus militantes, ao saberem da minha situação, defenderam o dito coordenador (ditador) de forma irracional e indiscriminada.

COM BASE NA MINHA EXPERIÊNCIA, POSSO FAZER AS SEGUINTES CONSTATAÇÕES:

Se você é vítima de assédio e abuso de poder, quais as possíveis atitudes das entidades estudantis e representação discente (com pouquíssimas exceções)?

1)       SE A REPRESENTAÇÃO DISCENTE FOR ALIADA PARTIDÁRIA DO DENUNCIADO

Você pode escutar: “Retire suas denúncias a respeito do nosso militante, caso     contrário, não faremos nada por você.” Esses representantes vão agir de forma inescrupulosa, vão mentir descaradamente e tentar difundir, sem que você saiba, a versão incongruente e irracional do seu colega de partido, apesar de você já ter refutado de forma documentada a versão dele. Você será visto como culpado por denunciar o assédio e abuso de poder. O que lhes interessará será salvar, a qualquer custo (ético ou moral), a pele daquele que você está denunciando. Eles irão ignorar o fato do denunciado utilizar-se de práticas autoritárias como docente e administrador público; esquecerão que esse filiado do seu partido é afiliado e protegido de professores que defendem os atos mais espúrios e fascistas praticados dentro da universidade (atos reprovados pelo próprio partido). Você pode mostrar os inúmeros documentos que você protocolou para o coordenador do seu curso, mas esses representantes estudantis vão dizer que não estão enxergando nada. Difundirão que o culpado é você, que não quis dialogar com o coitadinho do coordenador, que apenas desconsiderou suas graves denúncias e apoiou o assediador.

2)       SE A REPRESENTAÇÃO DISCENTE FOR CARREIRISTA POLÍTICO

Como provavelmente esses alunos querem concorrer futuramente a algum cargo político ou acadêmico, eles desejam ser bem vistos pela reitoria, administradores e docentes. Por mais legítimo e justo que seja o seu pedido, o que importa para esses alunos é receber sorrisos falsos, apertos de mão e tapinhas nas costas dos membros da burocracia universitária. Eles querem se sentir também docentes; temem ser mal vistos e desagradar seus futuros pares ou eleitores. Eles tremem perante a hipótese dos membros dos colegiados universitários acharem que eles (digníssimos representantes discentes!) defendem a causa de um aluno (assediado), que pode contrariar o interesse da Instituição e expô-la. Ficam em pânico com a possibilidade de, ao defenderem o direito (líquido e certo) de um aluno, sejam vistos como simpatizante de um “aluno problema” ou quem sabe de um “subversivo”. Dizem esses representantes: “Para que pedir para a USP apresentar transparência ou legalidade? Vai que isso comprometa meu futuro de nobre deputado. Sou representante discente para a minha projeção pessoal!”

3)       SE A REPRESENTAÇÃO DISCENTE FOR CARREIRISTA ACADÊMICA

O berço desses estudantes é a FFLCH: lá, encontramos a dita “elite intelectual”, que salvará toda a sociedade alienada, com o seu infinito esclarecimento. Eles vivem no mundo das ideias, no etéreo, no abstrato; o concreto é coisa para os radicais. São à imagem e semelhança dos seus orientadores; repetem as ideias deles, falam como eles, alguns chegam a vestir-se e até mesmo a sentarem-se como eles! Há aqueles, fruto do ambiente doentio, que se consideram lisonjeados, por serem assediados; sentem-se benquistos! Esses representantes adoram participar de GT (Grupo de Trabalho) disso, GT daquilo, onde pensam e pensam sobre determinada questão, mas não propõem nada concreto, eficaz e aplicável. Eles adoram participar desses grupos e comparecer em eventos, para estenderem seus longos e imprestáveis currículo lattes (a não ser para o seus futuros almejados lugares na academia, onde provavelmente protegerão seus colegas que praticam assédio e abuso de poder). Se você pedir para eles se posicionarem sobre o seu caso, eles dirão que não podem dizer nada sem antes fazer inúmeras reuniões. Por fim, não dirão nem farão nada porque temem o concreto e por isso também são alienados. Além disso, qualquer ação concreta pode desagradar seu deus supremo (o altíssimo orientador), que será seu futuro padrinho na hora que se candidatarem a uma vaga na academia.

Obs: apesar desses grupos brigarem entre si (por espaço político), na essência são todos iguais. Dessa forma, você não poderá contar com a ajuda de nenhum deles.

Esses diferentes conjuntos de estudantes, ao se omitir perante as minhas denúncias de assédio e abuso de poder, estão autorizando a prática dessas atitudes na USP. Quando os representantes discentes se negam a exigir da Instituição a apresentação da base legal e moral do meu desligamento, estão legitimando a Barbárie dentro da Instituição. Sendo assim, a repetição dessas práticas está sendo promovida tanto pela diferentes instâncias universitárias, quanto pelos docentes e pela representação discente.

K.P.

Leia aqui a parte I deste artigo: USP: Uma estrutura para legitimar a barbárie?  

 

2 comentários

  1. Cara, discordo de cada palavra que você escreveu, mas respeito muito e acho que isso é um tema que a Faculdade de Filosofia da usp provavelmente debate, você poderia me informar se vocês estão organizando algum debate aberto ao público, porque esse tema me chama muita atenção e eu gostaria de ouvir a opinião de outras pessoas

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  2. Estou comentando aqui em resposta ao autor do post “As coisas nem sempre foram assim” publicado em 19/02/2014, já que “misteriosamente” os comentários não são mais permitidos naquele post (vejam só, aqueles que gritam tanto contra a censura estão censurando!)

    obs: Caso o mediador dessa página queira, mova o seguinte texto para o post ao qual fiz referencia anteriormente.

    Segue adiante:

    Falácias em tom de ironia não legitimam em nada o seu discurso. Continua fraco e raso, como o da maioria dos universitários da USP (infelizmente os que acabam ganhando voz na imprensa vez ou outra e acabam desqualificando todos os que estudam lá).

    Quanto a questão das listas, aconselho você a ler o artigo 206, inciso III da CRFB/88 (faça um esforço como um estudante livre de dogmas e opressivas listas de presenças e pesquise no google por conta própria). Verá que cada instituto tem liberdade de estabelecer o método que irá avaliar os alunos, que por sua vez devem respeitar esse método. Nenhum ser humano age roboticamente, tal qual cada professor irá avaliar bem como preferir.

    Estou esperando você me responder sinceramente a pergunta que eu te fiz, ficar desviando o assunto não adiantará nada. Se você acredita que TODOS alunos do CRUSP estão lá por necessidade e devem ser beatificados em vida por sua luta épica contra o opressor SAS, espero que você peça para eles também irem à faculdade de maneira mais modesta (talvez não precisassem ir para o CRUSP de Hyundai ou de Nissan, uma Caloi 10 seria melhor), para condizer com o discurso de amor ao proletariado e à liberdade dos CRUSPIANOS.

    E para vocês que adotam o discurso da esquerda e do bom mocismo, você é BEM PRECONCEITUOSO, ein? Quem disse que eu sou partidário da Reação? A Reação também é um bando de filho da puta, assim como vocês! Eu quero que a Reação, o Rodas, o SAS e todos esses militecos aliciados pela extrema-esquerda se FODAM TODOS JUNTOS. Politicagem é a puta que o pariu!

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