“A ação como forma de esquecer a crítica e a autocrítica”

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Desde a ocupação da Reitoria da USP, no ano passado, a Universidade vive fortes emoções. Nas férias, a política não descansa, mas muitos “militantes” sim. No início deste ano, o menu é a gosto do freguês: nova/velha gestão da reitoria, interdição do campus da EACH, explosão orçamentária e cortes, declarações públicas de Zago na imprensa (antes disso, o texto foi pensado e repensado pelo seu pessoal de comunicação), …

O que chama a atenção é a forma como o DCE trata a política estudantil, as necessidades dos estudantes que dizem representar. O DCE está perdido, mas precisa aparentar a vanguarda dos estudantes, antes mesmo que os próprios estudantes façam por si aquilo que lhes interessa. Seu silêncio e omissão frente a EACH faz com que os estudantes desistam de seus cursos, chegando a uma evasão de quase 40%. Qual a sensação de fazer manobra política em um solo movediço? Controlar qualquer situação é necessário, por medo de perder o poder.

O Sintusp foi apertado em provocações da gestão Rodas, desde processos a ameaças de demolição de sua sede. Além disso, o plano de carreira serviu para esvaziar o processo de reivindicação dos funcionários da USP, deixando a questão do salário ao gosto dos mandatários a soldo. Tudo isso acompanhado pela representação dos trabalhadores e dos estudantes, por meio da aprovação do Plano de Carreira e dos orçamentos suicidas de Rodas pelo Conselho Universitário, o CoU.

A Adusp avisou que a crise orçamentária estaria por vir, mas tudo pairou sobre um silêncio terrível. O que favoreceu esse silêncio foi a acumulação dos problemas de gestão da USP, ausência de democracia e transparência, a presença da polícia no campus, o que serviu, inclusive, para desviar o foco dos problemas que “acabaram descobrindo”.

Na nova/velha gestão, os velhos lobos continuam por aí. Edson Leite, o famigerado da EACH, está na Osusp; Boueri também está recebendo seu salário; os irresponsáveis e cúmplices do CoU, de repente, querem discutir a democracia na Universidade! Claro, o melhor é discutir isso pra se dizer que a USP está em processo de “abertura”, que devemos estar unidos em função de uma crise que afeta a todos! Senão, os estudantes e funcionários pedirão para que os irresponsáveis tenham o merecido fim por meio de um necessário expurgo a bem da própria Universidade.

No momento, o que existe é a pauta dos professores e dos funcionários, o aumento salarial das três Universidades – que não ocorrerá por causa do grave comprometimento financeiro da USP. Porém, o problema é mais complexo. A situação da EACH mostra como o DCE e a Reitoria jogam retoricamente, sem comprometimento por meio de ações. O Sintusp, com uma greve a ser deflagrada, busca recuperar o espaço perdido nos últimos anos. A Adusp se mostra mais atualizada e articulada que o DCE e o Sintusp, mantendo ainda alguma dignidade na representação da categoria.

Corretamente, o Jornal da USP Livre pergunta: “qual a pauta?” Outra vez, a pauta é “estar a reboque”, carecer de identidade, de fazer política vazia, sem propostas e nem objetivos. No dia a dia, quando uma pessoa não ajuda, ao menos não deve atrapalhar; agora, quando não ajuda e até atrapalha, temos que fazer por nossa própria conta. O pior é que os problemas são vários, e a única coisa que querem fazer é arranjar meios para que iniciativas de auto-organização deem errado. Corte de bolsas, falta de moradia estudantil (fora as distorções dos critérios de seleção), a evasão na EACH, o silêncio da Reitoria (quebrada com as declarações públicas requentadas), a ausência de investigação interna em torno dos gastos da Universidade (os lobos cuidando do galinheiro, impossível!), o assédio e a violência como práticas cotidianas.

O que fica é a dúvida: como tanta gente boa e decente conseguiu produzir uma realidade péssima? Parece briga de família, em que existe uma espécie de “acordo de silêncio” comum e busca-se encontrar vítimas pra servir de bodes expiatórios.

Não adianta ir à greve quando funcionários escolheram o plano de carreira da Reitoria e não a representação do Sintusp. Os funcionários fizeram a autocrítica?

Não adianta ir à greve quando professores do CoU empurraram uma grande Universidade para o buraco. Esses professores fizeram a autocrítica?

Não adianta ir à greve quando estudantes, quando não sabem bem o que reivindicar, vão no vácuo das outras representações da Universidade, ao mesmo tempo em que buscam conter iniciativas estudantis. Os estudantes fizeram a autocrítica?

Mesmo que se diga que as reivindicações salariais dos professores e funcionários sejam justas, o momento não se resume apenas a elas. Sem cobrar aqueles que foram os responsáveis pela crise da Universidade – incluindo o atual reitor –, permanecerá o clima de injustiça e arbitrariedade. Quanto aos estudantes, votar na mesma gestão para continuar a mesma inoperância é dar um tiro no próprio pé. É necessário que sejam responsáveis por suas escolhas.

O Observador