A realidade segundo Ferreira Gullar

Ferreira Gullar, jovem, quando ainda era poeta.
Ferreira Gullar, jovem, quando ainda era poeta.

Ferreira Gullar chegou a acreditar em uma coisa a que chama de socialismo real. Em que acredita ele hoje?

Em matéria publicada na Folha de S. Paulo (O sonho e a realidade, 25/01/2015), ele confessa ter ficado admirado com a resposta de uma moça a uma observação feita por ele.

Perguntou a ela como era possível que ela acreditasse no socialismo se países como a União Soviética e o bloco do Leste renunciaram a ele e preferiram adotar o capitalismo. E admirou-se que ela tivesse respondido que esses países não eram socialistas de fato. Como aquela moça podia contrapor o sucesso de um socialismo imaginário, que nunca fora posto à prova, ao fracasso do socialismo real?

Esses países preferiram o capitalismo por ser o único sistema econômico viável. Acompanham Gullar nessa opinião diversos ex-marxistas, como Arthur Gianotti, por exemplo. Resta-nos saber se foram eles marxistas de fato.

Para Gullar, como para Gianotti, socialismo é sonho; capitalismo é realidade. E, contra o sonho, defendem a realidade. Não se pode viver no mundo dos sonhos. E conformam-se com a realidade.

Marx, que nunca foi idealista, pensava que o papel da filosofia era o de mudar o mundo. Ou seja, mudar a realidade. E por que a realidade precisa ser mudada? Porque é injusta e porque é obsoleta, tanto espiritualmente quanto materialmente.

Espiritualmente, pois as conquistas humanas no setor das artes, da ciência e do pensamento estão voltadas para explicar o presente e não para antecipar o futuro. Materialmente pois as conquistas materiais do homem já não atendem às necessidades materiais do homem. Vale dizer, o capitalismo está obsoleto. Dessa forma vivemos uma realidade, e não um sonho, obsoleta.

Se a realidade é obsoleta, o que dizer do sonho? Em que momento o sonho se tornou obsoleto? Um sonho só se torna obsoleto no momento em que deixamos de sonhar. Ferreira Gullar foi comunista até o momento em que a União Soviética deixou de existir. Desde então, ele deixou de ser comunista. E deixou de sonhar. Concomitantemente, deixou de ser poeta.

Não existe arte nem poesia sem sonho. É por isso que os românticos souberam definir o artista e o poeta como seres inspirados. Pois o que é a inspiração senão um estado alheio à vigília?

Desde que o sonho de um planeta operário se desfez no espírito de Ferreira Gullar, a poesia também se desfez no espírito dele. Já não havia com que sonhar. Já não havia o que criar.

E Ferreira Gullar passou a renegar seu próprio passado, formação e espírito. Negou-se a si mesmo. Deixou de ser. Passou a ajoelhar-se diante de uma ideologia que sempre repugnou, e, com isso, renegou o futuro também, recusando um lugar no panteão que ele estava reservado.

Hoje escreve na Folha de S. Paulo, repetindo a ideologia do próprio jornal e da atrasadíssima burguesia nacional. Para ele, resta o conselho — se é que alguma coisa lhe resta – do velho revolucionário russo, Trótski:

“Um homem que se ajoelha diante do fato consumado, é incapaz de afrontar o futuro.”

E, para Ferreira Gullar, o fato consumado é a morte que o espreita e o limbo que o aguarda.

Perto de Córdova, Espanha, 28 de janeiro de 2015

A.T.F