Na USP quem governa já é a direita golpista

NAZITUCANO

O anúncio da crise financeira e dos cortes em investimentos, obras, bolsas de auxílio estudantil e na aplicação de um Plano de Demissão Voluntária (PDV) que pretende demitir cerca de 3 mil funcionários da USP, feitos pelo reitor Marco Antonio Zago, colocou em discussão os valores arrecadados pela universidade, seus gastos e seu próprio funcionamento.

De fato, o orçamento da USP é imenso. Há capitais brasileiras importantes que arrecadam o mesmo, ou até menos que a universidade.  O crescimento do orçamento da USP é progressivo conforme os anos. Em 2013 a universidade contou com R$ 4,3 bilhões, em 2014 esse valor já passou para R$ 5 bilhões e para esse ano chegará a R$ 5,5 bilhões, quase a totalidade do dinheiro é de arrecadação do Imposto Sobre Circulação de Mercadoria e Serviços (ICMS).

Se a USP fosse um Estado certamente estaria nas mãos de uma burocracia que não conseguiu (e nem consegue) administrar seu orçamento. Professores doutores, de extensa formação acadêmica, e via de regra ligados à direita, não conseguiram gerir o orçamento bilionário da USP. A solução dada por esses intelectuais é a cobrança de mensalidades e a busca de recursos privados, além de um forte corte de gastos, ou seja, a aplicação de um plano de austeridade e a liquidação total da soberania do Estado uspiano.

Essa proposta, no entanto, não é nenhuma novidade, pelo contrário, se assemelha muito com o que José Serra e o PSDB arquitetaram em 2007, época em que governava o Estado de São Paulo. Visto que a situação política e econômica da universidade (ou do Estado uspiano) chegariam a condições insustentáveis, Serra impôs um interventor na gestão da USP para controlar a situação, o escolhido foi o segundo colocado na lista tríplice – lista que é formada através de um colégio eleitoral e encaminhada  para o governador do Estado – João Grandino Rodas.

Se a USP fosse um Estado neste momento teria sofrido seu primeiro “golpe constitucional”, e mergulharia em uma verdadeira ditadura. O convênio entre a USP e a Polícia Militar assinado em 2011 por Rodas, a prisão de dezenas de estudantes, a perseguição política através de processos administrativos movidos pela universidade e a expulsão de tantos outros estudantes da moradia estudantil e da própria USP são exemplos práticos desse novo regime de exceção.

Com um verniz democrático, baseado em brechas do Estatuto da USP que atesta que o governador do Estado tem plenos poderes para escolher quem bem entender indiferente da colocação do concorrente na lista tríplice, o golpe foi apresentado como legal e “constitucional”, é assim que funciona um golpe “branco”.

Vale ressaltar que a escolha do interventor Rodas não se deu por acaso. Antes dele existiu outro interventor no Estado uspinao, esse, no entanto, foi indicado durante o período mais duro da ditadura militar brasileira, por ninguém menos que Costa e Silva, um dos responsáveis pelo decreto do AI-5. Rodas teve sua candidatura e sua subida ao poder articulada pelo grupo de professores titulares que dirigia o Largo São Francisco, liderados por Celso Lafer, do PSDB, ex-ministro de FHC.

Celso Lafer, por sua vez, é o sucessor político de Miguel Reale, responsável em 1932, junto a Plínio Salgado, pela fundação da Ação Integralista Brasileira, ou seja, do fascismo brasileiro.

Em momentos de aprofundamento da crise a tendência é que a ditadura posta para governar assuma uma postura cada vez mais repressiva, por isso o caráter do “golpe constitucional” assumiu uma postura à lá Médici. No entanto, esse governo, naturalmente, sofreu imensa resistência e entrou em colapso.

Para substitui-lo e dar continuidade aos planos de austeridade, ou seja, o corte de gastos em projetos de desenvolvimento e despesas sociais Marco Antonio Zago foi posto no poder. Esse novo governo já operou uma ofensiva neoliberal grosseira. Cortou em 73% as bolsas, paralisou todas as obras de infraestrutura, demitiu trabalhadores, fechou restaurantes universitários, cortou vagas em creches e desviou o dinheiro que serviria para ampliar as vagas na moradia estudantil.

O que está sendo colocado em prática na USP é nada menos que o programa da direita nacional, que com o aprofundamento da crise de modo generalizado tem uma única forma de enfrenta-la: fazer o povo pagar, se necessário pela força e através de um golpe de Estado, para atacar a organização, a luta popular e a resistência a esses planos.