A dedicação nada exclusiva dos professores da USP

FUNDAÇÃO

Cerca de 2,1 mil professores trabalham em regime “Turista” na universidade e garantem o “pão de cada dia” dando aula em fundações privadas dentro da USP e desenvolvendo projetos para multinacionais

Atualmente a USP conta com cerca de 5,2 mil professores contratados em regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa (RDIDP), mais popularmente conhecida por Dedicação Exclusiva, o que representa 87% do total do corpo docente da universidade.

Como estímulo para que esses professores dediquem todos seus esforços para a formação de estudantes, as universidades públicas decidem pagar um extra em seu salário de até 50% sobre o salário-base, sendo que esses profissionais chegam a ganhar 37% mais do que professores que trabalham no conhecido regime de Turno Completo.

Desse total cerca de 2,1 mil professores, ou seja, 40% tem autorização expressa do reitor “bonzinho” Marco Antonio Zago, para trabalhar e receber por atividades alheias ao ensino público da USP, como dar aulas em cursos pagos, fazer pesquisas remuneradas por empresas, atuar na direção das Fundações privadas que atuam dentro do campus entre outras muitas coisas.

Esses professores-turistas burlam a lei, e tem aval da reitoria para isso, e firmam convênios, financiados por multinacionais, a peso de ouro, para desenvolverem vários projetos de forma concomitante a suas aulas. O professor-turista que entra no esquema pode acabar recebendo, proporcionalmente, 10 vezes mais que a média recebida trabalhando na universidade.

Outro fator é que esses professores-turistas deixam de dar aula na graduação ou na pós-graduação pública e gratuita da USP para dar cursos pagos oferecidos pelas Fundações privadas que usam as estruturas da universidade, seus laboratórios, suas bibliotecas, suas salas de aula, sua infraestrutura audiovisual e sua “marca” para faturar dezenas de milhões de reais todos os anos.

Os que entram no “Esquema do turista” ainda podem ganhar uma boquinha na direção dessas fundações. Ou seja, professores que passam a exercer paralelamente os cargos de docência na USP com o cargo privado de diretor ou conselheiro dessas entidades privadas. Enquanto isso, entidades privadas de maior porte, como a Fundação Instituto de Administração (FIA) e a Fundação Vanzolini, investem na política de “um pé em cada canoa” e transferem os cursos pagos para suas sedes extra-campus, oferecendo esses cursos sem o selo de qualidade USP, procurando driblar o recolhimento de taxas pela universidade, mas mesmo assim contanto com a participação dos professores de dedicação exclusiva.

Isso corrobora totalmente com a denúncia que foi enviada à redação do Jornal da USP Livre! no ano passado. De acordo com a denúncia, o professor Marco Antônio Gioso, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP do campus Butantã (FMVZ – USP), que trabalha em regime de Dedicação Exclusiva, falta excessivamente às suas aulas na faculdade, pois no mesmo horário vende serviços de assessoria a Pet Shops e de Coaching Executivo.

Durante a última reunião do Conselho Universitário – órgão controlado pelos amigos de Zago – no dia 07 de abril, foi apresentado a proposta de que as novas contratações da universidade sejam todas no Regime de Turno Parcial, de 12 horas semanais e também a criação de novos regimes de trabalho, como o de 40 horas sem dedicação exclusiva e uma simplificação do processo de contratação de professores temporários, ou seja, o reitor Zago quer oficializar o regime de trabalho “turista”.