Opinião – O dia em que o Movimento Estudantil da USP não se posicionou contra um golpe

Publicamos aqui fragmento de nota do “Comitê USP Contra o Golpe”sobre a última Assembleia Geral dos Estudantes da USP (12/05/2016)

A última Assembleia Geral das e dos Estudantes da USP ocorreu na quinta-feira, dia 12.05.2016, no Vão da História e Geografia no prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e decidiu que as e os estudantes da USP entrarão em greve por “Cotas, contratação de professores e permanência” junto a entrada das e dos funcionários em greve também a partir dessa data, unificando as categorias em pautas envolvendo o desmonte da universidade e da educação pública. Entretanto, no dia em que um golpe foi efetivado em nosso país, alguns setores do movimento estudantil se negaram a debater e se posicionar em relação ao governo ilegítimo de Michel Temer.

Defendemos na presente Assembleia que as pautas fossem discutidas antes da decisão de entrada na greve, justamente por entendermos que as e os estudantes da Universidade de São Paulo devem ter clareza nas pautas e motes de uma greve, para que possamos dialogar com o maior número de estudantes possível. Defendemos as pautas de cotas raciais e sociais como prioritárias do movimento estudantil, pois acreditamos ser a democratização do acesso e a entrada de setores marginalizados pela sociedade fundamental para que a Universidade de São Paulo torne-se cada vez mais pública e o movimento estudantil cada vez mais plural e menos elitizado.

Defendemos a questão de permanência, pois está intrinsecamente ligada à política de cotas justamente porque as e os estudantes que ingressam na universidade devem também permanecer, e para isso a universidade deve garantir condições como alimentação, moradia, bolsas, segurança etc. Não conseguimos falar de cotas sem falar de permanência, pois as e os estudantes que entram aqui também querem ficar! Sobre a questão da contratação de professores, vemos um grande problema que incide em várias unidades: não há professores suficientes, as salas estão superlotadas e aqueles que estão dando aula têm cada vez mais trabalho para repor a ausência dos professores. Precisamos discutir como são feitas as contratações e impedir que a educação pública seja sucateada, como prevê o plano de governo de Geraldo Alckmin.

Após deliberarmos essas pautas [cotas, permanência estudantil e contratação de professoras/es], tivemos um longa discussão sobre métodos e calendário. Entretanto, a questão de conjuntura foi ficando para “mais tarde”. Primeiramente, nós acreditamos que é necessário que as nossas lutas não estejam deslocadas da conjuntura nacional e do momento crítico que nosso país vive. Estamos entrando num estado de exceção no qual o processo de impeachment claramente articulado pelas elites do país junto a grande mídia e parte do judiciário se configura como um golpe de estado, pois não há provas de crime ou qualquer indício de descumprimento da lei por parte da presidenta eleita Dilma Rousseff.

O processo foi coordenado por Eduardo Cunha, deputado comprovadamente corrupto e com contas na Suíça, passando por cima de leis e ritos sem o menor pudor. O que estamos vendo é a chegada ao poder a todo custo de setores que não receberam o voto popular e que querem implementar uma agenda neoliberal de retrocessos nos direitos conquistados e ajustes para os mais pobres, para as mulheres, para os negros e negras, para os setores marginalizados na nossa sociedade. Setores que querem levar o Brasil ao retrocesso entregando nossas riquezas como o pré-sal, privatizando nossas empresas e cortando direitos trabalhistas, arrochando salários conforme está previsto no documento “A Ponte para o Futuro” apresentado por Temer e PMDB. O Governo Temer, empossado ontem, já deixou claro ao que veio, seus ministérios são compostos apenas por homens brancos,entre eles Alexandre de Moraes, reconhecido opressor dos movimentos sociais, que agora será Ministro da Justiça, englobando o ministério dos Direitos Humanos. Em seu discurso de posse, o presidente golpista, assume compromisso com a privatização, com uma mudança da política externa, expressos em seu lema, “Brasil: Ordem e Progresso.” Reafirmamos que não reconheceremos este governo ilegítimo e golpista, resistiremos e lutaremos para que a presidenta Dilma volte para o lugar onde o povo a colocou.

Setores do Movimento Estudantil e do DCE como JUNTOS!, PSTU e Território Livre fizeram de tudo para que o debate sobre a conjuntura política do país ficasse pra depois, pois não têm coragem de defender suas linhas políticas para o conjunto das e dos estudantes. Se negaram e votaram para não debatermos e deliberarmos sobre a conjuntura política. Num dia como o de ontem, quando Temer assumiu a Presidência da República, a Assembleia da Universidade de São Paulo não ter se posicionado contra o golpe e contra o governo ilegítimo de Temer é no mínimo vergonhoso e irresponsável.

Dessa maneira, o movimento estudantil daqui estará se posicionando na história do Brasil como corroborador desse golpe em curso. Se queremos um movimento estudantil calcado na realidade, é imprescindível que nos coloquemos não somente contra este ou aquele governo, mas sim contra o projeto de sociedade que a direita implementará em nosso país e sucateará ainda mais nossa universidade e a educação pública. Nós, gostaríamos de registrar nosso repúdio a essa atitude e dizer que as e os estudantes da Universidade de São Paulo não vão corroborar com o golpe em curso! Queremos que a próxima Assembleia Geral tenha como pauta a questão nacional, pois o movimento estudantil não pode estar fechado em si mesmo como uma bolha. Os golpistas de ontem e de hoje não passarão! Temer jamais! Resistiremos! Vai ter luta!

Convidamos às e aos estudantes, coletivos, organizações políticas, centros acadêmicos e entidades de toda a USP a assinarem conosco a presente nota.

Assinam:
– Comitê USP Contra o Golpe
– Coletivo Ruído Rosa – Letras USP
– Levante Popular da Juventude
– Balaio – Núcleo de Estudantes Petistas da USP
– Coletivo Apologia da História – História USP